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UOL Faz Mea-Culpa


Mais uma vez o De Olho na Mídia provou sua efetividade. A UOL mediante denúncia publicada em nosso site resolveu se manifestar sobre sua chamada para a entrevista com o governador baiano, Jacques Wagner. Foram publicadas duas respostas no portal: uma errata, onde o veículo admite que a chamada acaba por trair boa parte do conteúdo da matéria; e uma nota da redação onde os responsáveis justificam o uso do rótulo , "judeu" para esteriotipar o entrevistado, dizendo se tratar de uma "circunstância excepcional". Leia a íntegra das notas em nosso texto. E só a título de curiosidade: na própria errata, a UOL fez confusão novamente e trocou o nome do governador de Jacques para Jorge Wagner ( nome de um meio de campo do time do São Paulo). No entanto, a admissão do erro ainda é mais importante e supera este detalhe.


UOL - Erratas:


Home page do UOL - Jorge Wagner critica Mahmoud Ahmadinejad


No dia 25/11/2009, a home do UOL errou na elaboração da chamada de entrevista do governador da Bahia, Jaques Wagner, sobre a visita do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, ao Brasil. O enunciado ("Jaques Wagner - Judeu, governador da BA aprova vinda de iraniano") destacava o fato de o governador afirmar que havia sido importante o presidente Lula receber Ahmadinejad para abrir um canal de negociação do Irã com o Ocidente. Porém, foi omitido que Wagner criticou duramente o iraniano na maior parte da entrevista, assim como sua postura e suas políticas.


Ombudsman do UOL - Por Mara Gama


Erro e Viés



No dia 10, a ombudsman recebeu protestos de leitores sobre o enunciado de uma entrevista destacada na home page do portal no dia 25 de novembro.


"Jaques Wagner – Judeu, governador da BA aprova vinda de iraniano"


A entrevista concedida por Wagner (PT-BA), em vídeo, tinha um outro título na página interna.


"Ahmadinejad é desserviço à paz"


Parte das mensagens citava conteúdo publicado em página de um site que critica o UOL pela manchete.


Cito algumas mensagens que recebi:


"Senhores, estou chocada! Como é que deixam acontecer uma rata desse tamanho! Só pode ser um tremendo deslize, pois não acredito que sejam racistas e antissemitas! Mais cuidado, hein? Isso pega mal", disse Lucila


"Eu acho que um pedido de desculpas do UOL pelos erros cometidos seria o mínimo. Mas o importante também é saber se esse erro foi feito com má intenção ou foi somente incompetência de quem elaborou o texto. Aguardo seu julgamento em defesa dos leitores e usuários do UOL", cobrou Luiz.


"Caro amigo, sou assinante deste site, e como tal me acho no direito de indagá-los. Por que a expressão 'judeu' na chamada da matéria sobre a 'aprovação' de Jaques Wagner à visita do sr. Ahmadinejad ao Brasil? Por acaso, vocês estão pensando em identificar as pessoas, a partir de agora, seguido de sua religião ou origem étnica? Caso pensem em fazê-lo, desde já, lhes peço que avisem. Não pretendo ‘patrocinar’ o racismo com minha assinatura", disse David.


"Receba o meu protesto pela deselegante, preconceituosa e mentirosa manchete, veiculada na home page do UOL, sobre suposta 'aprovação do judeu Jaques Wagner à visita de Ahmadinejad ao Brasil’. Com que intenção o jornalista, autor da manchete, enfatizou que o governador é judeu? É repugnante”, disse Martha.


Marcelo pondera:

"Partindo do princípio de que realmente Jaques Wagner tivesse aprovado a vinda do iraniano (o que veremos não ser verdade na sequência deste comentário), estaria correta esta chamada? Eu deixo bem explícita a pergunta: seria correta, ética esta chamada?

Explico. É óbvio que chamaria a atenção uma chamada destas (em sendo verdade). Um político judeu apoiando a vinda do presidente iraniano? Chama a atenção. Holofote. Mas é correto?

Alguém já viu chamadas ao estilo: Celso Pitta, afro-descendente, etc..., Lula, cristão, etc..., até mesmo, presidente Ahmadinejad do irã, muçulmano, etc.... Nunca vimos, não é verdade?

Então deve ser porque tem algo errado ai. Rotular Jaques Wagner de judeu, destacando sua religião, é discriminação, racismo e antissemitismo.

Afinal esta se entrevistando:

- Jaques Wagner, o governador? - Jaques Wagner, o politico? - Jaques Wagner, o membro do partido governista, o PT?

Ou um ‘judeu’?????

Se for o judeu Jaques Wagner, posso arranjar muitos outros judeus (a maioria por sinal) que são contra esta visita. Fato é que se tratou de apelação baixa, sensacionalismo ralé, que não condiz com um veículo do porte da UOL.

Agora, como se isso por si só não bastasse, adivinhem? A chamada da UOL é completamente errônea, porque é inversamente proporcional ao conteúdo da matéria: Jaques Wagner desaprova Ahmadinejad.

Vejam só:

Ahmadinejad é desserviço a paz: Cadê a aprovação????

É preciso dizer mais alguma coisa? Além de discriminatória, a manchete é errônea, e por consequência, mentirosa.

Um veículo como a UOL se transformando em imprensa marrom? Tem cabimento?"



****


Encaminhei as críticas à Redação, que admitiu que houve erro na chamada e publicou uma errata hoje.

O erro de informação é tão grave que compromete a análise dos outros aspectos da questão. Mas acho importante tratar aqui neste espaço.

Não é mesmo comum que se aponte a religião de um entrevistado.

A não ser que este assunto seja pauta ou circunstância tratada na reportagem. No caso da entrevista de Jaques Wagner, a condição de judeu era fundamental para a entrevista e isto é mostrado de forma clara.

O entrevistador, jornalista Fernando Rodrigues, diz: "O presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, esteve no Brasil. Ele, como se sabe, tem dito que o Holocausto jamais existiu e que o Estado de Israel será varrido do mapa em breve. O senhor é judeu, seus pais vieram ao Brasil fugindo da perseguição nazista na Polônia. O que o senhor acha? O presidente Lula deveria, da forma como recebeu tão amigavelmente, ter recebido o presidente do Irã no Brasil?”


Ao que Jaques Wagner responde que considera que o presidente do Irã presta um desserviço à causa dos palestinos e à causa do Oriente Médio. Wagner conta também que Lula pedira a ele, "único governador judeu do Brasil, que sou eu” que recebesse o presidente da Palestina.


Wagner foi entrevistado por ser governador, do partido governista (PT) e judeu.


A chamada discrimina o entrevistado. Ela de fato distingue a religião do governador.

Considero, no entanto, que o erro não está em atribuir a religião. O que mostra viés é a formulação que, em tom de denúncia, aponta uma imaginada contradição entre e religião e a posição política do governador, baseada, quem sabe, na idéia de que um judeu não poderia estar de acordo com a visita. Assim, os judeus pensariam todos de um jeito só.

Acho importante, portanto, ressaltar, que não está proibido mencionar a religião de alguém em título em toda e qualquer circunstância. O que não pode haver é preconceito, segregação e racismo.



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